Destaques Atualizado em 22 de julho de 2026 por Renata Caldas

Os primeiros poemas de Orides Fontela, escritos na adolescência em São João da Boa Vista, já revelavam a concisão e o rigor que marcaram sua obra. Homenageada na Flip 2026, a poeta teve o apoio de críticos como Antonio Candido e Davi Arrigucci Jr. desde o início da carreira.

Primeiros poemas da juventude já revelavam grandeza de Orides Fontela

Os primeiros poemas de Orides Fontela, escritos na adolescência em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, já revelavam a concisão e o rigor que se tornariam marcas de sua obra. Homenageada da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) em 2026, Orides surgiu como uma poeta pronta, com versos que carregam múltiplos significados e densidade poética e filosófica. Os poemas daquela época também mostravam o que viria a ser uma característica central em sua produção: reflexões profundas expressas com poucas palavras.

O poema que mudou tudo: Elegia e o encontro com Davi Arrigucci Jr.

O poema Elegia, publicado no jornal local O Município em 1965, foi o ponto de virada na trajetória de Orides. Ele chamou a atenção de Davi Arrigucci Jr., conterrâneo que estudava letras na época e hoje é crítico literário e professor aposentado de teoria literária da Universidade de São Paulo (USP). Foi ele quem a incentivou a reunir os poemas em livro e a se mudar para a capital paulista.

"Ele encontrou com Orides, casualmente, ali na cidade e falou: 'Você tem mais coisa? Deixa eu ver'. E ela mostrou uma pasta de poemas dela. Ele achou aquilo muito bom, levou para São Paulo e deu na mão de críticos", contou Cristina Yamazaki, editora da Hedra, que trabalhou na recente reedição das obras da poeta.

Apoio de peso: Antonio Candido e Marilena Chaui

Desde o início de sua carreira, Orides teve entusiastas como o crítico literário Antonio Candido e a filósofa Marilena Chaui, que depois seria sua professora no curso de filosofia da USP. Filha de um marceneiro e de uma dona de casa, Orides foi alfabetizada pela mãe. O reconhecimento entre os pares veio cedo, mesmo sem o grande público conhecê-la.

"Ela surgiu como uma poeta pronta. Ela tem cinco livros, e não é que ela tenha uma progressão entre os livros. Desde o primeiro livro, que são esses poemas de juventude, ela já era reconhecidamente uma grande poeta, apesar de não ser conhecida do grande público", ressaltou Cristina em entrevista à Agência Brasil.

Parcimoniosa opulência: a poesia que diz muito com pouco

Com poucas palavras, Orides construiu poemas que carregam múltiplos significados, com densidade poética e filosófica. Antonio Candido usou uma expressão que se repetiu bastante sobre sua obra: "parcimoniosa opulência". Ela conseguia produzir muito significado com poucas palavras.

"Ela vai depurando a linguagem até chegar ao âmago da palavra, ela vai fazendo muitas experimentações até levar a gente para [uma espécie de] um núcleo do silêncio. O silêncio é muito importante na obra dela. Ele faz parte, ele também constitui os poemas", relatou Cristina. "Ela tem um poema tão bonito em que ela fala de saber de cor o silêncio. É isso, ela não quer profanar o silêncio com quaisquer palavras. E ela é muito precisa", acrescentou.

Filosofia e poesia: a influência da formação acadêmica

A formação de Orides em filosofia também é uma referência nos seus poemas. "Ela escreveu um poema chamado Kant (relido), em que ela faz uma leitura poética do Kant", lembrou a editora. Ela ressaltou que a poesia de Orides não incorpora elementos autobiográficos; sua escrita não era voltada para uma dimensão de vida pessoal.

As obras e a reedição: cinco livros que marcaram a poesia brasileira

Ao longo de sua carreira, Orides publicou cinco livros de poesia: Transposição (1969), Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986) e Teia (1996). Com Alba, que tem prefácio do crítico Antonio Candido, ela ganhou o Prêmio Jabuti na categoria Poesia. Para celebrar a obra e o legado de Orides, haverá três lançamentos durante a Flip: um livro de poemas ilustrado para crianças e jovens, uma coletânea inédita de escritos críticos e entrevistas, além da nova edição - revista e ampliada - da biografia da poeta, todos pela editora Hedra literatura brasileira contemporânea.

A Hedra detém os direitos das obras já publicadas e lançou nova edição de todas elas nos últimos meses. A editora Cristina Yamazaki conta que houve um trabalho conjunto com a organizadora Ieda Lebensztayn e com Augusto Massi, amigo e editor de Orides. "Fizemos uma pesquisa de manuscritos, datiloscritos, materiais que a gente pudesse incluir nas obras. Encontramos, por exemplo, anotações do Antonio Candido em um poema que ela incorporou depois. Ela teve leitores superespeciais."

A estrutura de cada livro: do anúncio do tema ao silêncio final

Cristina ressalta que cada livro de Orides foi muito pensado, com a ordem dos poemas e as partes cuidadosamente organizadas. "Ela sempre começa com um poema que anuncia o tema daquele volume, e ela sempre termina com um poema que trata do silêncio. Isso fica mais claro quando vemos cada obra individualmente", explicou.

Para Ieda Lebensztayn, o poema Caleidoscópio, do livro Helianto, é central para entender a poesia e a vida de Orides. "Etimologicamente, a palavra caleidoscópio é o olhar em busca de uma forma de beleza. Kalós, como na palavra caligrafia, significa belo; eidos é forma, figura; e skopeîn, como em telescópio, denota ver, observar", analisou. Tal definição é a própria ideia de poesia para Orides, feita com imagens de espelhos, estrelas, luzes e silêncios, que se organizam artisticamente e sempre se recombinam em novos versos.

Orides além dos rótulos: a poeta entre os poetas

Os rótulos e estereótipos atribuídos a Orides tiveram muita visibilidade, o que deixou o reconhecimento do valor literário de sua obra em segundo plano. O biógrafo da autora, Gustavo de Castro, faz essa crítica e relata que havia uma narrativa consolidada que deslocava o foco da poeta para uma personagem quase folclórica, descrita a partir de conflitos pessoais.

Cristina Yamazaki relatou que Orides tem uma história de vida de muita restrição e de dificuldades financeiras. "Isso acabou, às vezes, ganhando mais notoriedade do que a obra dela. Acho que isso atrapalhou [um reconhecimento mais amplo], inclusive, na época. Ser mulher, poeta, pobre, não se encaixar num padrão da sociedade: isso tudo prejudicou muito ela, o que não acontecia com os homens da literatura", disse a editora.

Para Cristina, a questão de gênero foi um fator que trouxe prejuízos a Orides, no contexto do machismo. "Tem os 'poetas malditos' [homens] que são admirados pela obra. No caso dela, num certo momento, a imprensa deu muito foco à mitologia em torno da vida dela e não pela obra."

A homenagem na Flip 2026

A decisão da curadora Rita Palmeira de homenagear Orides Fontela na edição da Flip deste ano foi celebrada entre seus admiradores e profissionais que já conhecem profundamente seu trabalho. "Foi uma escolha muito bonita para tornar a Orides conhecida, porque ela é muito conhecida entre os poetas. É como se ela fosse a poeta entre os poetas, sabe? Tem muita gente que já escreveu em homenagem a Orides", ressaltou Cristina, citando O Nervo do Poema: Antologia para Orides Fontela (editora Relicário), que terá a segunda edição lançada durante o evento flip 2026.

Perguntas Frequentes

Quem foi Orides Fontela?

Orides Fontela foi uma poeta brasileira, nascida em São João da Boa Vista (SP), conhecida por sua poesia concisa e filosófica. Publicou cinco livros e ganhou o Prêmio Jabuti com Alba. Foi homenageada na Flip 2026.

Qual foi o primeiro poema publicado de Orides Fontela?

O poema Elegia foi publicado no jornal O Município em 1965, quando ela ainda era adolescente.

Quem ajudou Orides Fontela no início da carreira?

O crítico literário Davi Arrigucci Jr., conterrâneo de Orides, a incentivou a publicar um livro e se mudar para São Paulo. Ela também teve o apoio de Antonio Candido e Marilena Chaui.

Quantos livros Orides Fontela publicou?

Ela publicou cinco livros de poesia: Transposição (1969), Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986) e Teia (1996).

O que significa "parcimoniosa opulência" na obra de Orides?

A expressão, usada por Antonio Candido, descreve a capacidade de Orides de produzir muito significado com poucas palavras.

Por que Orides Fontela foi homenageada na Flip 2026?

A curadora Rita Palmeira escolheu homenagear Orides para tornar sua obra mais conhecida, já que ela é muito admirada entre poetas, mas pouco conhecida do grande público.

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