Destaques Atualizado em 01 de agosto de 2026 por Marcos Tibúrcio

Mesmo formando a maioria nos cursos audiovisuais, mulheres ocupam menos de 20% dos cargos de liderança no cinema brasileiro. Dados da Ancine mostram que só 52 longas de 2023 foram dirigidos por mulheres, contra 231 por homens.

Participação feminina na direção de filmes permanece abaixo de 20%

O esforço para chegar ao topo da cadeia cinematográfica brasileira ainda encontra uma barreira dura: as mulheres seguem sub-representadas na direção de filmes. Dados oficiais mostram que, mesmo sendo maioria entre os formados em cursos audiovisuais, elas ocupam menos de um quinto dos cargos de liderança nas obras produzidas no país.

A participação feminina na direção de filmes brasileiros permanece abaixo de 20%. Segundo o Anuário Estatístico do Audiovisual Brasileiro de 2024, do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (OCA), publicado pela Agência Nacional de Cinema (Ancine), mulheres representam apenas 17% da direção de séries e filmes nacionais. O número contrasta com a presença majoritária em outras áreas: 58% na exibição e 54% na distribuição.

Por que a participação feminina na direção ainda é tão baixa?

A produtora Minom Pinho, diretora da Associação Paulista de Cineastas (Apaci) e coordenadora do Festival Internacional de Mulheres no Cinema (FIM Cine), não vê justificativa técnica para o cenário. Em entrevista à Agência Brasil durante o festival Bonito CineSur, ela afirmou que não há número que explique a estagnação.

"Ninguém pode alegar que as mulheres não têm competência. Elas estão fazendo um milagre. Foi dado a elas 20% [de cargos de liderança] nos filmes, mas elas estão pegando 44% do mercado", enfatizou.

A fala resume um paradoxo: com menos espaço de decisão, as mulheres ainda assim atraem público e geram retorno comercial relevante. Para Minom, isso indica que o problema não é capacidade, mas estrutura.

Os números da Ancine sobre direção e roteiro

O anuário traz um retrato detalhado da desigualdade. Em 2023, dos longas-metragens brasileiros produzidos:

  • 231 foram dirigidos exclusivamente por homens;
  • apenas 52 tiveram direção feminina;
  • nos roteiros, os homens também lideravam: 165 contra 41.

As mulheres, porém, eram maioria em funções tradicionalmente associadas a elas: direção de arte (99 contra 57) e produção-executiva (110 contra 66).

Minom critica essa divisão como fruto de estereótipo. "Esse é o lugar que a sociedade convencionou que é o nosso lugar. Temos aí a direção de arte ou figurino, porque 'arte é coisa de mulher'. Isso é um estereótipo absurdo", disse.

A defesa por metas claras e políticas públicas

Para reverter o quadro, Minom defende a criação de políticas públicas com indicadores e metas objetivas. A sugestão dela é estipular que o número de mulheres em roteiro e direção em longas-metragens alcance 30% até 2030.

"As grandes mudanças se fazem com política pública", ressaltou. "E para você alcançar a política pública, você tem que ter indicador e indutor."

A produtora reconhece que o cinema é uma "zona de resistência muito grande" e que, sem metas claras, o avanço tende a ser lento. O sonho declarado dela é chegar à equidade nos próximos 10 anos. políticas públicas no audiovisual

O impacto para o consumidor de cinema

Para quem assiste a filmes brasileiros, a baixa participação feminina na direção tem efeito direto na variedade de histórias contadas. Minom argumenta que ter mulheres conduzindo narrativas muda a escolha das imagens e o ponto de vista das obras.

"Quando você tem uma ideia, escreve essa história e tem uma mulher dirigindo e escolhendo as imagens que vão configurar naquela obra audiovisual, isso faz muita diferença", afirmou.

A atriz chilena Paulina Garcia, presente ao debate no Bonito CineSur, reforçou a necessidade de personagens femininas mais complexas. "Para as mulheres, existem mais coisas do que desempenhar papéis de pessoas doentes ou que morrem a certa idade", defendeu.

A união das mulheres na América do Sul

A mesa do festival também trouxe a visão de Gabriela Sandoval, diretora e produtora de indústria do Festival Internacional de Cinema de Santiago (Sanfic). Para ela, é preciso construir uma rede de apoio entre mulheres do continente.

"Creio que essa construção de uma rede é importantíssima", disse. "O espaço de decisão é uma responsabilidade e abre caminhos para que se contem outras histórias."

A ideia de união continental aparece como caminho para ampliar a presença feminina em todas as etapas da produção, não só na direção. mulheres no audiovisual latino-americano

O que esperar dos próximos anos

Enquanto não há políticas públicas com metas claras, a tendência é de manutenção do patamar atual. Os dados da Ancine mostram que a participação feminina na direção não ultrapassa 20% há anos, mesmo com mulheres tendo maior formação e atraindo grandes públicos.

A pressão por indicadores e indutores, como sugere Minom, pode ser o caminho para transformar esse cenário. Sem isso, o cinema brasileiro segue contando histórias majoritariamente por um único ponto de vista. como funcionam os editais da Ancine

Perguntas Frequentes

Qual é o percentual de mulheres na direção de filmes no Brasil?

Segundo o Anuário Estatístico do Audiovisual Brasileiro de 2024, da Ancine, mulheres representam 17% da direção de séries e filmes brasileiros.

Quantos filmes foram dirigidos por mulheres em 2023?

Em 2023, 52 longas-metragens brasileiros foram dirigidos exclusivamente por mulheres, contra 231 por homens.

O que é preciso para aumentar a participação feminina?

A produtora Minom Pinho defende políticas públicas com metas, como alcançar 30% de mulheres em roteiro e direção até 2030.

Mulheres são maioria em quais áreas do audiovisual?

Elas são maioria na exibição (58%) e na distribuição (54%), além de dominarem direção de arte e produção-executiva.

Quem participou do debate no Bonito CineSur?

A mesa contou com Minom Pinho, a atriz chilena Paulina Garcia e Gabriela Sandoval, do Festival Internacional de Cinema de Santiago.

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