Instalação Bordaduras, de Regina Silveira, ocupa os vidros do Sesi Lab em Brasília e abre o 25º Encontro Internacional de Arte e Tecnologia, que debate até domingo o uso da inteligência artificial na criação artística.
Quando entrei no Sesi Lab pela primeira vez, não foi para ver arte. Foi para trabalhar. E foi justamente ali que uma imagem de agulha me atravessou.
A instalação Bordaduras, da artista plástica Regina Silveira, ocupa 530 metros quadrados de vinil adesivo sobre os vidros do museu do Sesi Lab, em Brasília, com uma série de bordados em ponto de cruz inacabados. A visitação ao público começou nesta terça (15).
A obra abre o 25º Encontro Internacional de Arte e Tecnologia, evento que debate a interseção entre as duas áreas. Até domingo (20), o Sesi Lab e o Museu Nacional de Brasília recebem obras e experimentos de 41 artistas de diferentes regiões do País.
Quem trabalha no prédio sentiu antes de qualquer crítico. Kaliane Martins, de 40 anos, agente de portaria do Sesi Lab, aprendeu a bordar com a mãe e a avó. "Vi as agulhas e me fez recordar", diz ela, que costurou as próprias roupas e as dos três filhos adolescentes.
Regina Silveira, de 87 anos, professora emérita da Universidade de São Paulo (USP), explica que os bordados estão historicamente ligados à alfabetização das mulheres, no Pré-Renascimento, quando elas bordavam letras em enxovais. Para ela, a obra tem caráter feminista.
O ponto que mais me interessa, porém, é outro. Regina não trata a inteligência artificial como ameaça. Ela lembra que as tecnologias atuam com repertórios e memórias já existentes: "Nesse sentido, ela pode ajudar, mas não pode ajudar a criar ou a pensar". E acrescenta que invenção é própria do cérebro humano, uma conexão inesperada entre dados já incorporados.
Suzete Venturelli, artista e professora, uma das coordenadoras do evento, concorda que nada substitui a criatividade humana. Ela relata que muitos alunos resistem ao uso dessas ferramentas, porque perceberam que o banco de dados que utilizam tem viés racista e eurocêntrico. Para ela, é preciso educar para a boa utilização da IA, privilegiando a criatividade.
Na porta do museu, o professor de circo tocantinense Gabriel Coelho, de 21 anos, ensaiava com malabares de pinos coloridos. Ao ver a obra, lembrou que aprendeu com a mãe a costurar e a fazer crochê. "Desestresso com agulha e linha, e fico mais longe do celular", conta.
Se você for sozinha, como eu, escolha horário de movimento no museu e avise alguém sobre o trajeto. Dá pra ir sozinha, sim. Medo a gente leva junto na mala, mas não deixa ele decidir o roteiro.
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