Novidades Atualizado em 25 de agosto de 2026 por Sérgio Bittencourt

Cabeças Cortadas, filme de Glauber Rocha rodado em 1970 na Catalunha, ganhará versão restaurada em 4k em 2027, 45 anos após a morte do cineasta. A restauração é conduzida pela indústria do cinema espanhol.

O longa-metragem "Cabeças Cortadas", de Glauber Rocha, ganhará versão restaurada em 4k em 2027, 45 anos depois da morte do cineasta. A produção hispano-brasileira, rodada em 1970 na Catalunha, no norte da Espanha, será digitalizada com correção de cor, imagem e som, em projeto conduzido pela indústria do cinema espanhol.

A obra, que Glauber definiu como "um filme que está entre o teatro e a poesia", traz uma metáfora sobre a decadência das ditaduras na América Latina e na Península Ibérica. O personagem central, o déspota Diaz II, interpretado pelo espanhol Francisco Rabal, mistura referências de déspotas latino-americanos e de Francisco Franco, ditador espanhol. Atormentado por seus atos, o tirano espera a chegada da morte em cenas marcantes, como a do telefone, em que questiona efeitos climáticos e afirma já ter "extinguido vulcões".

Controverso e enigmático, o filme pode ser de difícil compreensão para quem não conhece o contexto latino, o que talvez explique a recepção fria do público menos habituado à estética de Glauber, que rompia com os padrões comerciais do cinema hollywoodiano. Ainda assim, despertou a atenção de críticos e realizadores mais jovens, que passaram a defender a obra feita durante o exílio do cineasta brasileiro, motivado pela perseguição do regime militar no Brasil.

Para o diretor e crítico de cinema Cavi Borges, "Cabeças Cortadas" é uma obra clássica, tanto pelo tema, que reflete sobre a dominação norte-americana, o racismo e o fascismo, quanto pelo rompimento estético com o cinema comercial. "O filme de Glauber e o que ele representa vão na contramão do momento em que vivemos, em que o cinema norte-americano e seu streaming crescem e dominam toda a indústria", avaliou Borges, à Agência Brasil. Ele destacou que esta é uma das últimas obras de Glauber ainda não restauradas, "uma obra internacional que celebra o cinema anti-imperialista".

A restauração reúne a Escola de Cinema de Madrid (Ecam), a Vídeo Mercury Films e a FlixOlé, distribuidora e plataforma de streaming especializada no cinema espanhol. Em nota conjunta, as organizações afirmaram que a iniciativa devolve a obra, "única da filmografia de Glauber", ao seu devido lugar na história do cinema: "O de uma joia rara do cinema espanhol que, ligada à América Latina e à vanguarda europeia, se conecta a um cinema teatral, histórica e politicamente revolucionário".

Miguel López, representante da FlixOlé e da Vídeo Mercury Films, classificou o filme como "completamente esquecido e inacessível", e disse que o projeto é uma oportunidade para apresentá-lo novamente ao público com a nova cópia digital. O projeto inclui também um website com depoimentos de artistas que participaram da filmagem, como Paco Rabal, bastidores que enfrentaram os fortes ventos da Tramontana e relatos sobre o jeito peculiar de Glauber de filmar, marcado pela improvisação.

Glauber Rocha, figura chave do Cinema Novo Brasileiro, definiu "Cabeças Cortadas" como um filme do "Terceiro Mundo sobre o Terceiro Mundo", que busca "uma comunicação com a sensibilidade do espectador, usando uma linguagem diferente da do cinema tradicional". "Nesse caso, o espectador deve aceitar o filme como quem lê um poema, ouve uma música ou vê uma exposição de pintura", avisou o cineasta, que morreu em 1981, aos 42 anos, deixando obras como "Deus e o diabo na terra do sol" (1964) e "Terra em transe" (1967).

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