Cabeças Cortadas, filme de Glauber Rocha rodado em 1970 na Catalunha, ganhará versão restaurada em 4k em 2027, 45 anos após a morte do cineasta. A restauração é conduzida pela indústria do cinema espanhol.
O longa-metragem "Cabeças Cortadas", de Glauber Rocha, ganhará versão restaurada em 4k em 2027, 45 anos depois da morte do cineasta. A produção hispano-brasileira, rodada em 1970 na Catalunha, no norte da Espanha, será digitalizada com correção de cor, imagem e som, em projeto conduzido pela indústria do cinema espanhol.
A obra, que Glauber definiu como "um filme que está entre o teatro e a poesia", traz uma metáfora sobre a decadência das ditaduras na América Latina e na Península Ibérica. O personagem central, o déspota Diaz II, interpretado pelo espanhol Francisco Rabal, mistura referências de déspotas latino-americanos e de Francisco Franco, ditador espanhol. Atormentado por seus atos, o tirano espera a chegada da morte em cenas marcantes, como a do telefone, em que questiona efeitos climáticos e afirma já ter "extinguido vulcões".
Controverso e enigmático, o filme pode ser de difícil compreensão para quem não conhece o contexto latino, o que talvez explique a recepção fria do público menos habituado à estética de Glauber, que rompia com os padrões comerciais do cinema hollywoodiano. Ainda assim, despertou a atenção de críticos e realizadores mais jovens, que passaram a defender a obra feita durante o exílio do cineasta brasileiro, motivado pela perseguição do regime militar no Brasil.
Para o diretor e crítico de cinema Cavi Borges, "Cabeças Cortadas" é uma obra clássica, tanto pelo tema, que reflete sobre a dominação norte-americana, o racismo e o fascismo, quanto pelo rompimento estético com o cinema comercial. "O filme de Glauber e o que ele representa vão na contramão do momento em que vivemos, em que o cinema norte-americano e seu streaming crescem e dominam toda a indústria", avaliou Borges, à Agência Brasil. Ele destacou que esta é uma das últimas obras de Glauber ainda não restauradas, "uma obra internacional que celebra o cinema anti-imperialista".
A restauração reúne a Escola de Cinema de Madrid (Ecam), a Vídeo Mercury Films e a FlixOlé, distribuidora e plataforma de streaming especializada no cinema espanhol. Em nota conjunta, as organizações afirmaram que a iniciativa devolve a obra, "única da filmografia de Glauber", ao seu devido lugar na história do cinema: "O de uma joia rara do cinema espanhol que, ligada à América Latina e à vanguarda europeia, se conecta a um cinema teatral, histórica e politicamente revolucionário".
Miguel López, representante da FlixOlé e da Vídeo Mercury Films, classificou o filme como "completamente esquecido e inacessível", e disse que o projeto é uma oportunidade para apresentá-lo novamente ao público com a nova cópia digital. O projeto inclui também um website com depoimentos de artistas que participaram da filmagem, como Paco Rabal, bastidores que enfrentaram os fortes ventos da Tramontana e relatos sobre o jeito peculiar de Glauber de filmar, marcado pela improvisação.
Glauber Rocha, figura chave do Cinema Novo Brasileiro, definiu "Cabeças Cortadas" como um filme do "Terceiro Mundo sobre o Terceiro Mundo", que busca "uma comunicação com a sensibilidade do espectador, usando uma linguagem diferente da do cinema tradicional". "Nesse caso, o espectador deve aceitar o filme como quem lê um poema, ouve uma música ou vê uma exposição de pintura", avisou o cineasta, que morreu em 1981, aos 42 anos, deixando obras como "Deus e o diabo na terra do sol" (1964) e "Terra em transe" (1967).
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