Destaques Atualizado em 31 de julho de 2026 por Renata Caldas

Jorge Bodansky revisita 50 anos de carreira no documentário Um Olhar Inquieto. Ele reencontra imagens inéditas de indígenas Paiter Suruí e mostra a transformação da Amazônia.

Em novo documentário, Bodansky revisita carreira e destaca mudanças

Em 1973, Jorge Bodansky sobrevoava os arredores de Aripuanã (MT) como cinegrafista de uma TV alemã. A missão era registrar a criação da Cidade Laboratório de Humboldt, projeto da ditadura militar para ocupar a Amazônia, desativado em 1978. Durante o voo, com uma câmera Super-8, ele filmou por acaso um grupo de indígenas Paiter Suruí isolados tentando flechar o avião. As imagens ficaram esquecidas por décadas, até serem digitalizadas recentemente.

O reencontro com as imagens perdidas

As imagens não foram enviadas à TV alemã. Ficaram guardadas no arquivo do cineasta até que a digitalização recente as trouxe de volta. "O objetivo desse sobrevoo não eram os indígenas, por acaso eles apareceram e subiram no telhado e tentaram flechar o avião. Essa imagem ficou esquecida e agora ela apareceu e eu pensei: 'Puxa vida, isso me intrigou muito. Quem são esses indígenas?'", disse Bodansky.

Foi essa pergunta que o levou a revisitar toda a carreira e produzir "Um Olhar Inquieto: O Cinema de Jorge Bodansky". O filme foi exibido na mostra competitiva ambiental do Bonito Cinesur, festival que ocorre até sábado (1°/8) em Bonito (MT).

O que mudou em 50 anos de cinema

Passados 50 anos do sobrevoo, Bodansky afirma que sua forma de fazer cinema pouco mudou. "O título do filme é Um Olhar Inquieto porque acho que meu olhar continua inquieto. Eu sempre olho e procuro as coisas. Minha forma de me posicionar diante da imagem do cinema continua a mesma", explicou.

Ele segue fazendo "cinema de aventura, de observação e preocupado com a questão social". A câmera continua buscando histórias reais, agora com um olhar que já viveu cinco décadas de transformações na Amazônia.

A transformação da paisagem: de floresta a soja

Se o cinema de Bodansky permaneceu constante, o mesmo não se pode dizer da região de Aripuanã. Muitos daqueles indígenas morreram por doenças ou violências quando começaram a ser contatados. O projeto Humboldt estava em ruínas. E a paisagem jamais voltou a ser a mesma.

"A questão que aconteceu com esses indígenas, não quero dar o spoiler, mas é a história que todo mundo sabe. E a outra é que quando eu estive lá, era floresta até o horizonte. Hoje é soja até o horizonte", relatou o cineasta.

O contraste entre as imagens de 1973 e as atuais é o coração do documentário. A câmera mostra que a exploração da Amazônia, iniciada pela ditadura militar, continua um problema atual. "Essa é uma forma de ocupação que começou na ditadura militar e que não mudou até agora", ressaltou.

A crítica à ocupação da Amazônia

Bodansky é direto ao apontar a continuidade do modelo de ocupação: "Independentemente do governo que está de plantão, a forma de ocupar a Amazônia e de ver a Amazônia é a mesma. Você parte do princípio de que não existe nada lá e temos que ocupá-la e fazê-la produzir. Isso não leva em consideração que lá tem gente e que sabe o que quer, e que luta por isso".

A crítica não é nova, mas ganha força quando vem de quem documentou o início desse processo. O cineasta não propõe soluções fáceis, mas aponta um caminho: a organização da sociedade civil.

A esperança na mobilização social

Para Bodansky, o problema só será resolvido por meio da organização e mobilização da sociedade civil. "Hoje você vai a qualquer comunidade quilombola, ribeirinha ou indígena e eles estão organizados, têm representatividade, sabem o que querem", afirmou.

Essa é a virada do documentário: o olhar inquieto de Bodansky não é apenas sobre o passado, mas sobre o presente e o futuro. As comunidades que antes eram invisíveis agora têm voz e luta por seus direitos.

Um filme autobiográfico sobre o fazer cinema

"No decorrer desse processo de pesquisar imagens eu acabei contando a minha história também. Então esse é um filme autobiográfico e que conta uma história que eu vivi", disse o cineasta. A revisão do arquivo pessoal virou um espelho da própria trajetória.

O documentário não é só sobre a Amazônia ou os Paiter Suruí. É também sobre como um cineasta enxerga o próprio trabalho depois de cinco décadas. A pergunta inicial, "quem são esses indígenas?", se transformou em "quem sou eu diante dessas imagens?".

O papel do Bonito Cinesur

A exibição no Bonito Cinesur coloca o filme em diálogo com o público do Centro-Oeste. O festival, que ocorre em Bonito (MT), é uma vitrine para produções ambientais. A mostra competitiva ambiental trouxe "Um Olhar Inquieto" para perto do território onde as imagens foram captadas.

A repórter viajou a convite do Bonito CineSur, o que reforça a importância do festival como espaço de debate sobre a região.

Perguntas Frequentes

Onde posso assistir "Um Olhar Inquieto"?

O filme foi exibido no Bonito Cinesur, festival em Bonito (MT), que ocorre até 1° de agosto. Ainda não há informações sobre distribuição comercial ou streaming.

Quem são os Paiter Suruí?

São indígenas que viviam isolados na região de Aripuanã (MT). Foram contatados na década de 1970, e muitos morreram por doenças ou violências após o contato.

O que foi a Cidade Laboratório de Humboldt?

Foi um projeto científico e tecnológico da ditadura militar brasileira para ocupar a Amazônia, criado nos anos 1970 e desativado em 1978.

Por que o documentário se chama "Um Olhar Inquieto"?

Porque Bodansky diz que seu olhar continua inquieto, sempre procurando coisas e se posicionando diante da imagem do cinema da mesma forma há 50 anos.

O que mudou na Amazônia segundo o filme?

Onde havia floresta até o horizonte, hoje há soja. O projeto Humboldt está em ruínas, e a forma de ocupação iniciada na ditadura militar continua a mesma, segundo o cineasta.

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