Rainha Francisca Dias, de 65 anos, e 19 músicos do quilombo de Morro Alto se apresentam no Conic, em Brasília, neste sábado (29), às 20h, com entrada gratuita. O encontro reúne artistas de 11 estados e do Distrito Federal.
A rainha Francisca Dias, de 65 anos, e mais 19 músicos do quilombo de Morro Alto sobem ao palco do Conic, em Brasília, neste sábado (29), às 20h, com entrada gratuita. Eles participam do Encontro de Mestres da cultura popular, que começou na quinta-feira (27). A apresentação abre com a expressão "alumiar em vida", que traduz o que significa assumir a coroa de rainha do congado do Maçambique de Osório, manifestação cultural da comunidade quilombola do litoral norte do Rio Grande do Sul.
Francisca Dias, conhecida como Rainha Ginga Preta, explica que o maçambique é uma congada gaúcha, de tradição de matriz africana bantu, mantida na região desde o século 19. "São as mesmas roupas e músicas desde sempre", diz. A manutenção de tradição, arte, fé e memória encanta a comunidade e forma uma aliança de resistência entre diferentes faixas etárias. Os artistas vão de crianças a idosos, e tudo do grupo é produzido pela própria comunidade, incluindo os instrumentos. Além dos tambores, a comunidade faz a maçacaia, um cestinho de taquara com sementes de caetés, que garante o ritmo para o congado.
O elemento da fé católica enaltece a imagem de Nossa Senhora do Rosário. "A bandeira é muito sagrada para a gente", afirma a rainha. Para ela, a arte ensina contra preconceitos, incluindo o racismo. "A gente prepara também as nossas crianças para se defenderem com palavras". Apresentar a tradição na capital a emociona: "Esse é um momento muito feliz, um sonho de levar a nossa cultura pelo Brasil. É muito triste para a gente, quando falamos da congada, existe quem estranhe a presença das pessoas negras no Rio Grande do Sul".
O curador e coordenador do evento, Anderson Formiga, diz que há artistas de 11 estados e do Distrito Federal na programação. "A gente tentou formar um mosaico de cultura popular, que é muito negro, mas que também tem um pé nas origens europeias e outras indígenas", afirma. O evento contempla também oficinas. "O jovem precisa ser encantado", acredita o curador. Ele acrescenta que os artistas mais velhos têm conseguido fazer herdeiros dispostos a honrar as tradições dos ancestrais.
A rainha Preta conta que, durante a congada, "ninguém nem pensa em pegar o celular". Seu maior desejo é honrar os ancestrais. A mãe, Severina Dias, última rainha, morreu em 7 de outubro de 2016, justamente no dia de Rosário, a padroeira. Severina pediu à filha que lutasse por manter viva a tradição artística. Neste ano, a celebração do maçambique não ocorrerá no dia 7 por causa das eleições, mas no dia 24 de setembro. O quilombo conta hoje com 1.750 famílias.
O mestre e músico maranhense Tião Carvalho, de 71 anos, também se apresenta no encontro. Ele contabiliza apresentações frequentes na Europa e mistura ritmos como samba, coco, bumba-meu-boi, forró e baião. Professor na educação básica, fundou o grupo Cupuaçu, dedicado ao estudo e à prática de brincadeiras populares. "É preciso que o Brasil valorize mais a cultura tradicional. O foco maior é a gente conscientizar e buscar políticas públicas que garantam espaço para nós", afirmou. Ele entende que artistas com mais recursos ainda são mais contemplados em shows nas cidades brasileiras. "Se você mostrar a cultura para o jovem, ele vai gostar", considera.
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