# Memória é fundamental na literatura, diz Milton Hatoum

> Milton Hatoum, escritor brasileiro, define a memória como elemento fundamental na literatura, servindo de musa tutelar para a criação ficcional. A obra Dança de Enganos encerra a trilogia de Hatoum sobre famílias dilaceradas pela ditadura militar, consolidando o tema da recordação como força narrativa central. A declaração do autor reforça o papel da memória na construção de narrativas históricas e pessoais.

*Blog do Diário · Destaques · 10 de agosto de 2026 · Eduardo Pellegrini*

Milton Hatoum defende a memória como musa tutelar dos escritores e explica como Dança de Enganos fecha sua trilogia sobre famílias dilaceradas pela ditadura militar.

## Memória é fundamental na literatura, diz escritor Milton Hatoum

Desde Relato de um Certo Oriente, a memória vem sendo objeto de investigação do escritor manauara Milton Hatoum. Com Dança de Enganos, publicado no final do ano passado e que encerra sua trilogia O Lugar Mais Sombrio, não foi diferente. O novo livro é baseado nas memórias e anotações de Lina, a mãe de Martim, personagem principal dos outros dois volumes da série: A Noite da Espera e Pontos de Fuga.

Em Dança de Enganos, Lina assume a voz principal para expor as dores, os impactos e os traumas carregados por famílias dilaceradas pela ditadura militar. Hatoum falou sobre o tema a jornalistas antes de participar de uma mesa da Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), no Museu Eugênio Teixeira Leal, em Salvador.

## O que Hatoum diz sobre a memória na literatura

"A memória na literatura é, vamos dizer, fundamental. Ela é uma espécie de musa tutelar dos escritores. Mas a memória não é algo que está cristalizado no passado. A memória só faz sentido na literatura, e eu acho que na própria vida, quando você traz o passado para o presente e ela adquire um significado mais forte. Porque tudo que nós vivenciamos hoje tem a ver com o nosso passado, não apenas recente, mas distante também", afirmou.

Na trilogia O Lugar Mais Sombrio, Hatoum trata dos dramas familiares no período da ditadura militar brasileira. "A trilogia fala basicamente disso, de um grupo de jovens, de personagens jovens, que passaram a infância, a juventude e uma parte da vida adulta durante um período de opressão, de autoritarismo, de brutalidade, de repressão e de censura. Isso é um tema tratado nesses três romances, mas não é o tema principal", disse.

O tema principal, esclareceu, é a relação familiar. "E esse último volume é o livro da mãe, que é um livro de memórias, em que ela praticamente fala sobre a família, sobre ela e descobre coisas muito surpreendentes, e por isso o título é Dança de Enganos. Ela viveu durante um período da vida dela movida por enganos, por falsidades. E então ela descobre coisas que só mesmo essa presença da memória faz com que ela tenha consciência do que ela é", explicou.

## Milton Hatoum na Academia Brasileira de Letras

Milton Hatoum é um dos mais importantes escritores da literatura brasileira contemporânea e recentemente tomou posse como novo membro da Academia Brasileira de Letras. "Por acaso, sou o primeiro escritor da Amazônia na Academia Brasileira de Letras. Mas, enfim, continuo a fazer o que eu venho fazendo há mais de 35 anos, que é dar palestras, falar basicamente sobre literatura, ler muitos livros e escrever alguns poucos", disse.

Vencedor de diversos prêmios literários e cotado em listas de apostas para o Nobel de Literatura, sua presença na Flipelô lotou o auditório do museu. Ele começou sua fala dizendo que sua trilogia foi escrita como uma espécie de "vingança" ao que aconteceu no Brasil. "Foi também uma vingança. Quem da minha geração participou do movimento estudantil ou participou ativamente da luta contra a ditadura, quem não perdeu amigos ou não teve um amigo preso, foi submetido à tortura."

O escritor contou que recebeu diários e relatos de amigos presos e torturados durante a ditadura para escrever os livros. "E eu li muitas vezes chocado porque são relatos muito duros, de uma crueza assim incrível e impressionante. Mas eu usei muito pouca coisa desse material que eu li, porque eu queria, a partir do que li, inventar. Porque esse é o grande pilar do romance, a imaginação."

## Posicionamento político e empatia

Parte da trilogia, reforçou, marca seu posicionamento sobre a atualidade, quando surgiram vozes no Brasil pedindo a volta do período de autoritarismo. "Foi o momento em que eu encontrei para também me posicionar. Não como um texto de denúncia porque eu não aprecio muito isso, nem de forma didática, mas eu mudei muita coisa sobretudo entre o segundo e o terceiro volumes. Eu reescrevi muitas coisas em função dessa catástrofe política que se abateu sobre o Brasil. Como é que eu vou definir essa gente? São absolutamente facínoras."

Para ele, um dos remédios para esse momento atual é a empatia. "A empatia também serve para a crise que nós estamos vivendo. Porque ela é exatamente o contrário, o oposto do egotismo. Uma pessoa empática integra as suas necessidades básicas ou vitais com o coletivo, com a necessidade dos outros. E é isso que falta", refletiu.

## Educação e a professora que o alfabetizou

Ao responder perguntas do público, Hatoum reforçou a importância da educação. Segundo ele, o desmonte da escola pública teve início com a ditadura militar e agora ela precisa ser reconstruída: "Isso seria fantasticamente um ato patriótico, de formar cidadania e de dar condições de igualdade a todos da escola pública."

Ele recordou a professora que o alfabetizou, Maria Luiza Freitas Pinto, personalidade citada em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras. "Pode parecer um pouco piegas, mas eu vou contar. Quando eu publiquei meu primeiro livro, eu morava em Manaus, em 1989. E ela estava na fila para autógrafos. Ela chegou, abriu a bolsa e disse: 'vou te mostrar uma coisa'. Aí ela tirou um papel amarelo, desdobrou e disse: 'Essa é a sua primeira redação. Eu guardei porque eu achava que você ia se tornar um escritor'. Ela morreu aos 104 anos. E até os 100 anos, ela ia aos lançamentos do meu livro."

A décima edição da Flipelô começou na última quarta-feira (5) e termina neste domingo. A cobertura completa da Agência Brasil está disponível no site.

## Perguntas Frequentes

### O que é a trilogia O Lugar Mais Sombrio?

É uma série de três romances de Milton Hatoum que trata dos dramas familiares no período da ditadura militar brasileira. O tema principal é a relação familiar, não a ditadura em si.

### Quem é Lina em Dança de Enganos?

Lina é a mãe de Martim, personagem principal dos outros dois livros da série. Em Dança de Enganos, ela assume a voz principal para expor dores e traumas de famílias dilaceradas pela ditadura.

### Por que o livro se chama Dança de Enganos?

Porque Lina viveu parte da vida movida por enganos e falsidades, e descobre coisas surpreendentes sobre a família, ganhando consciência do que é.

### Milton Hatoum é membro da Academia Brasileira de Letras?

Sim, ele tomou posse recentemente e é o primeiro escritor da Amazônia na Academia.

### Onde Hatoum falou sobre memória e literatura?

Na Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), no Museu Eugênio Teixeira Leal, em Salvador, em agosto de 2026.

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Fonte (canonical): https://blogdodiario.com.br/destaques/memoria-fundamental-literatura-diz-escritor-milton-hatoum/
