Destaques Atualizado em 07 de agosto de 2026 por Marcos Tibúrcio

No fim dos anos 70, jovens poetas baianos desafiaram a ditadura recitando versos em praça pública. Ametista Nunes, única mulher entre as fundadoras, relembra.

"A gente só recitava poesias de subversão", diz poeta baiana

A chegada à Praça da Piedade, em Salvador, era um ato de coragem. No fim dos anos 70, sob a ditadura militar, um grupo de jovens poetas decidiu ocupar aquele espaço público para declamar versos e desafiar a repressão. Nasceu ali o movimento Poetas na Praça, formado por estudantes da Bahia que fizeram da poesia um marco de resistência política, cultural e social.

O que foi o Poetas na Praça? Foi um movimento de poetas baianos que, a partir de 1979, se reunia em praça pública para recitar poesias de subversão, desafiando a censura e a ditadura militar.

Uma das dez fundadoras, Ametista Nunes, era a única mulher do grupo no começo. "Em 1979, quando a gente começou, era exatamente na época da ditadura, momento em que poesias eram proibidas, músicas eram proibidas e os artistas eram todos proibidos, exilados ou mortos", relembrou. "E a gente também sabe a história de muitos que foram assassinados ou desaparecidos".

O movimento praticava uma espécie de desafio às autoridades, pois acontecia justamente em frente ao prédio da Secretaria de Segurança Pública da Bahia, na Praça da Piedade, uma praça histórica de Salvador "onde os escravos foram enterrados". "Lá a gente recitava [os versos] e eram só poesias de subversão. Era de provocação mesmo, a gente provocava bastante", ressaltou Ametista.

A poesia como grito de utopia

Em entrevista à Agência Brasil, Ametista destacou que a poesia serviu como instrumento de resistência e que a arte segue fundamental nos dias de hoje. "Ou a gente entra com a arte nesse processo social ou nunca vai mudar as mentes. Nem os corações", disse, após acompanhar uma mesa na Casa Motiva sobre o legado do movimento.

A poeta Semírames Sé, uma das principais vozes femininas do grupo, reforçou a provocação como marca constante. "A poesia foi sempre uma batalha, foi sempre nosso grito de utopia, o nosso grito de igualdade, fraternidade e comunhão. Foi assim que cheguei à Praça da Piedade", contou na Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô).

Popularizar a poesia e educar

Douglas de Almeida, que integrou o movimento, lembrou que esses jovens ajudaram a popularizar a poesia. "Antes, a poesia era inatingível. Mas o que é que esses poetas fizeram? Eles popularizaram esse gênero literário com uma linguagem mais coloquial, mais urbana, mais irônica e direta para os transeuntes lá da Praça da Piedade. Essa foi uma grande vitória do movimento".

O aspecto pedagógico também foi conquista. "A gente também fez um trabalho editorial porque grande parte das pessoas não tinha o hábito da leitura. Os poetas começaram a fazer antologias não apenas com seu poema autoral, mas com o de outros poetas como Manuel Bandeira ou Cecília Meireles", explicou. "Quando a população se acercava da praça, ela terminava tendo um mundo gigantesco".

E nem só de subversão viviam. "Mesmo revolucionários e que se dedicavam contra a ditadura e a censura, eles ainda tinham o tempo para fazer poemas de amor", contou Almeida. "Quanto mais amor se gasta, mais bonito o amor brota", poetizou.

Flipelô 2026: a maior festa literária da Bahia

A Flipelô, considerada a maior festa literária da Bahia, chega à décima edição neste ano. A expectativa dos organizadores é de que mais de 250 mil pessoas aproveitem a programação cultural, que ocorre até o próximo domingo (9). Mais informações no site oficial do evento.

  • A repórter e a fotógrafa viajaram a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flipelô 2026.

Perguntas Frequentes

Quando surgiu o Poetas na Praça?

O movimento começou em 1979, no fim da ditadura militar, quando jovens poetas baianos se reuniram na Praça da Piedade, em Salvador.

Quem foi Ametista Nunes?

Ametista Nunes foi uma das dez fundadoras do Poetas na Praça e a única mulher no início do grupo. Ela relembra o período como de repressão e resistência.

O que os poetas recitavam?

Segundo Ametista, eram "só poesias de subversão", com tom de provocação e desafio às autoridades da época.

Qual a importância do movimento?

O grupo popularizou a poesia com linguagem coloquial e urbana, além de fazer trabalho editorial com antologias de poetas como Manuel Bandeira e Cecília Meireles.

Onde acontecia o movimento?

Na Praça da Piedade, em Salvador, em frente ao prédio da Secretaria de Segurança Pública da Bahia, local histórico onde escravos foram enterrados.

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