Destaques Atualizado em 31 de julho de 2026 por Renata Caldas

Entre 1954 e 1989, a ditadura de Stroessner no Paraguai matou 60 pessoas, torturou 19 mil e prendeu quase 20 mil. No CineSur, ator Diro Romero lembra que crimes seguem sem respostas.

Crimes da ditadura paraguaia seguem sem respostas, diz ator no CineSur

Entre as ditaduras militares que se instalaram pela América do Sul, nenhuma durou tanto quanto a do Paraguai. O regime do general Alfredo Stroessner, no poder entre 1954 e 1989, deixou um rastro de violência que ainda ecoa. No Bonito CineSur, festival que ocorre em Bonito (MS), o ator Diro Romero lembrou: muitos desses crimes seguem sem respostas.

O que a Comissão da Verdade revelou sobre a ditadura paraguaia

Em 2003, a Comissão da Verdade e Justiça do Paraguai divulgou números que dimensionam a repressão. Durante os 35 anos de governo de Stroessner, quase 20 mil pessoas foram presas arbitrariamente ou de forma ilegal. Outras 19 mil foram torturadas. Sessenta foram mortas. E 3,5 mil precisaram ser exiladas.

Entre os grupos que mais sofreram violações estavam os formados por pessoas LGBTQI+. A perseguição tinha alvo claro, e um dos casos mais emblemáticos foi o assassinato de Bernardo Aranda, em 1959.

O caso Bernardo Aranda: um crime que nunca foi solucionado

Bernardo Aranda era locutor de rádio, homossexual e amava rock and roll. Em 1959, foi queimado enquanto dormia. O crime jamais foi solucionado. Para a Comissão da Verdade e Justiça paraguaia, o assassinato pode ter sido tramado pelo governo militar.

Essa história inspirou o livro "Narciso", do escritor e jornalista paraguaio Guido Rodríguez Alcalá. A obra agora virou cinema: o filme "Quién Mato a Narciso?", dirigido por Marcelo Martinessi, conquistou recentemente o Prêmio de Melhor Filme da Mostra Panorama do Festival de Berlim. Esta semana, foi exibido na competição de filmes sul-americanos do Bonito CineSur, que segue até este sábado (1º/8).

"Não sabemos a resposta": a fala do ator Diro Romero

Diro Romero, que interpreta Narciso no cinema, foi direto ao ponto durante a apresentação no festival. "Esse crime nunca foi esclarecido até hoje. Por isso, durante a apresentação [do filme no Bonito CineSur], eu falei: 'Tanto no cinema quanto na vida, muitas vezes não temos respostas'", disse. "Então, no cinema também não há um desfecho, porque nós mesmos, no Paraguai, não sabemos a resposta. E este é apenas um dos muitos casos que ocorreram."

Para Romero, a história da ditadura no Paraguai é muito semelhante à dos demais países da América do Sul, com "desaparecidos, torturas e mortes que, até hoje, permanecem sem esclarecimento".

O papel do cinema na memória e na união sul-americana

Segundo o ator, apresentar essa história por meio do cinema procura transmitir uma ideia: a de que é preciso garantir que essa violência jamais volte a ocorrer entre países sul-americanos.

"Viemos do mesmo lugar. A ideia é que sejamos mais unidos. Acho que é isso que as pessoas querem, mas nossos líderes estão seguindo uma direção diferente. Estamos nos dividindo em um momento em que precisamos estar mais unidos do que nunca."

O novo momento do cinema paraguaio: da Lei do Cinema ao Mercosul

"Quién Mato a Narciso?" marca um novo momento do cinema paraguaio. Nos últimos anos, o país instituiu políticas para incentivar sua produção cinematográfica. Entre elas, a Lei do Cinema (2018), a criação do Instituto Nacional do Audiovisual do Paraguai (INAP) e o recente acordo de coprodução cinematográfica e audiovisual do Mercosul.

O documento, assinado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, moderniza regras para o setor audiovisual do bloco. Permite que coproduções recorram a fundos públicos de fomento dos países que compõem o Mercosul.

O impacto de "7 Caixas" e o impulso recente

O ator, músico, produtor e membro da Academia de Cinema e da União de Atores do Paraguai, Celso Franco, lembra que o cinema do país só começou a ganhar impulso após o sucesso de "7 Caixas" (2012). Ele protagonizou o filme, que atraiu 300 mil pessoas aos cinemas paraguaios.

"Foi um filme que teve um impacto enorme no cinema. Foi um fenômeno, e um fenômeno decorrente de uma questão que venho analisando há muito tempo: a falta de visão do Paraguai sobre si mesmo."

Há cerca de cinco anos, o setor de investimento ganhou impulso. "Agora temos o INAP, o Instituto Nacional do Audiovisual, que conta com fundos específicos para o cinema e vem impulsionando fortemente a produção audiovisual", afirmou Franco.

Para ele, com essas novas políticas, o cinema paraguaio poderá, finalmente, contar suas histórias. "Há muitas histórias para serem contadas."

O que muda com o acordo de coprodução do Mercosul

O acordo assinado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai moderniza as regras do setor audiovisual. Na prática, coproduções entre os países do bloco podem acessar fundos públicos de fomento de cada nação. Isso abre caminho para projetos conjuntos e para que histórias como a de Narciso ganhem o mundo.

Perguntas Frequentes

Qual foi a duração da ditadura de Stroessner?

A ditadura de Alfredo Stroessner durou 35 anos, entre 1954 e 1989.

Quantas pessoas foram mortas pela ditadura paraguaia?

Segundo a Comissão da Verdade e Justiça do Paraguai, 60 pessoas foram mortas. Além disso, 19 mil foram torturadas e quase 20 mil presas.

Quem foi Bernardo Aranda?

Bernardo Aranda foi um locutor de rádio homossexual, fã de rock and roll, assassinado em 1959. Ele foi queimado enquanto dormia, e o crime nunca foi solucionado.

O que é o Bonito CineSur?

É um festival de cinema que ocorre em Bonito (MS), com competição de filmes sul-americanos. A edição atual vai até sábado (1º/8).

O que é o INAP?

O Instituto Nacional do Audiovisual do Paraguai, criado para fomentar a produção cinematográfica do país, com fundos específicos para o setor.

  • A repórter viajou a convite do Bonito CineSur.
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